O que mudou e o que permanece igual um ano após o massacre em Parkland

Por NYT.

O nome “Parkland” se tornou abreviatura da tragédia que muitos esperavam que marcasse o início do fim dos massacres em escolas.

LEIA TAMBÉM: Estudante portando uma AR-15 modificada é preso no estacionamento da UCF

LEIA TAMBÉM: Ataque a tiros deixa dez feridos em condomínio nos EUA

LEIA TAMBÉM: Mãe atira no próprio filho que se recusou a ir à escola em Detroit

Jardim feito em homenagens as vítimas do tiroteio em massa na escola Marjory Stoneman Douglas em Parkland, na Flórida
(Imagem: Eve Edelheit/The New York Times)

Mas pergunte aos sobreviventes da Escola Secundária Marjory Stoneman Douglas em momentos mais tranquilos sobre este ano terrível desde o último 14 de fevereiro, e eles lhe contarão uma história diferente, mais pessoal. Sobre inocência perdida, sonhos desfeitos, dor reprimida.

Há o menino que levou cinco tiros para proteger seus colegas. Um herói, proclamaram as manchetes. Ele queria ser jogador de futebol profissional. “Agora não faço nada”, disse ele.

Há a jovem que conta às pessoas sobre seu melhor amigo, porque se ela disser “namorado” não parece suficiente para transmitir o que eles eram. Alma gêmea: foi o que ele disse que ela significava para ele, antes de morrer.

E há os rostos famosos, os estudantes que todo mundo pensa que conhece, que em uma manhã recente estavam em uma escola elementar próxima, onde uma instituição local revelou silenciosamente um mural, o último de 17 projetos de serviço comunitário criados para homenagear as vítimas.

David Hogg, que foi à CNN e desafiou os adultos a agirem como tal, deitou-se numa quadra de basquete e pintou uma flor de hibisco. Emma González, a que chamou de “m*” os políticos que não falam sério sobre o controle de armas, agachou-se descalça diante do mural, recortou um estêncil de papel e cantou a canção dos Beatles “Here Comes the Sun”.

Pensar neles, e neste colégio em um subúrbio endinheirado, como meros símbolos da tragédia ignora a complexa tapeçaria de tristeza, medo e desafio que agora faz parte dela para sempre e continuará por muito tempo depois que o último desses estudantes se formar.

Em uma série de entrevistas, nove membros da comunidade de Stoneman Douglas, estudantes, pais, policiais, professores, refletiram sobre os últimos 12 meses.

Eles não queriam reviver aquele dia. Não queriam discutir política. Não queriam falar sobre o julgamento ainda pendente do atirador por assassinato em primeiro grau.

O que eles queriam fazer era lamentar as mortes.

Em toda a atividade do último ano, a Marcha por Nossas Vidas em Washington, a turnê pelo país registrando eleitores, as investigações, as audiências, o fim do curso, entrar na faculdade, alguns disseram que não tiveram tempo para avaliar a medida exata do que perderam. Como explicou Jammal Lemy, 21, aluno da Stoneman Douglas que se tornou um ativista: “Tivemos coisas demais acontecendo”.

Estas são suas histórias, em suas próprias palavras.

ANTHONY BORGES, 16 ANOS, QUE ESTUDOU NA ESCOLA MARJORY STONEMAN DOUGLAS DURANTE UM TIROTEIO EM MASSA HÁ UM ANO E LEVOU CINCO BALAS PARA PROTEGER SEUS COLEGAS DE CLASSE (IMAGEM: EVE EDELHEIT/THE NEW YORK TIMES)

ANTHONY BORGES, 16

Os cinco ferimentos de bala que ele sofreu enquanto bloqueava a porta de uma sala de aula para proteger outros estudantes sararam, incrivelmente. Mas sua recuperação está longe de concluída. E a perspectiva de ter de depor no tribunal assombra seu futuro.

Não voltei à escola porque não vi uma mudança. A segurança falhou. Eles precisam pôr detectores de metal. Estou estudando em casa. Mas eu gostaria de ir para outra escola um dia.

As pessoas me perguntam o que aconteceu, o que me fez fazer o que fiz. Eu digo que sempre fui forte.

O melhor momento para mim foi quando consegui andar sozinho. O médico me disse: “Você pode andar um pouco agora sem muletas”. Então um dia eu estava em casa e pensei: “Está bem, vou fazer isso”. Levantei-me e comecei a mancar. Entrei na sala e meu avô, minha avó, minha mãe e meu pai estavam lá, e eles começaram a chorar.

Fiquei orgulhoso de mim mesmo. Tinha pensado que talvez não voltasse a andar. Mas fui à fisioterapia todos os dias. Agora preciso recuperar minha força. Ainda não consigo levantar pesos.

Minha vida não é normal. Nunca será como antes. Eu costumava sair da escola e ir jogar futebol. Tudo o que eu queria era jogar no futebol profissional. Sou atacante. Agora não faço nada.

Hoje dei um depoimento no processo criminal. Os advogados de defesa me perguntaram sobre a pena de morte. Eu disse que sou contra. Sempre pensei assim, porque é um pecado mortal. Não sou Deus para tirar a vida de alguém.

ANNA CREAN, 16, ESTUDANTE DA MARJORIE STONEMAN DOUGLAS (IMAGEM: EVE EDELHEIT/THE NEW YORK TIMES)

ANNA CREAN, 16

Hoje no segundo ano, ela estava no interior do prédio do primeiro ano onde ocorreu o tiroteio. Sua parceira de laboratório, Alyssa Alhadeff, foi morta, assim como dois de seus colegas na aula de redação. Durante a entrevista, gritos de pássaros que sobrevoavam a fizeram dar pulos.

Quando eu estava na sétima série, uma professora nos disse que Parkland era uma bolha. Ela disse: “Um dia alguma coisa ruim vai acontecer aqui, e a bolha vai estourar”. Lembro-me que fiquei pensando nisso depois. Tipo: “Puxa, ela tinha razão”. Não me sinto mais segura aqui.

Tenho transtorno de estresse pós-traumático. A parte mais difícil são os ruídos repentinos. No 4 de Julho eu estava num acampamento e não esperava o início dos fogos de artifício. Tive um ataque de pânico. Na escola, alguns calouros tentam pregar peças em nós. Eles deixam cair cadernos e filmam nossa reação. Temos treinamentos mensais de código vermelho. Acho que escapei de três deles. É uma lembrança constante do tiroteio, toda vez.

Eu e minhas três melhores amigas somos as únicas que entendemos as outras. Um dia eles divulgaram uma gravação em vídeo do tiroteio. Nós assistimos juntas. Cada vez que o tiroteio é mostrado, as pessoas ficam muito incomodadas, mas elas têm de ver.

A Marcha por Nossas Vidas em Washington foi provavelmente uma das melhores experiências da minha vida. Conhecemos Joe Biden e Nancy Pelosi. Eu fiz muitos novos amigos. Mas gostaria de não ter tido essas oportunidades.

Não somos todos ativistas ruidosos. Muitos de nós queremos voltar e terminar o colégio da melhor maneira possível. Para a faculdade, quero ir à Irlanda, de onde meus pais vieram, porque não quero fazer mais quatro anos de escola aqui. Realmente não gosto de como este país é dividido. Na Irlanda não há armas.

Eve Edelheit/The New York Times O TENENTE NICHOLAS MAZZEI, DE 46 ANOS, E O CAPITÃO BRAD MOCK, 43, ESTAVAM ENTRE OS PRIMEIROS SOCORRISTAS A ENTRAR NA ESCOLA MARJORY STONEMAN DOUGLAS (IMAGEM: EVE EDELHEIT/THE NEW YORK TIMES)

TENENTE NICHOLAS MAZZEI, 46, E CAPITÃO BRAD MOCK, 43

Os policiais de Coral Springs, que são amigos há mais de 25 anos, estavam entre os primeiros profissionais de emergência a entrar no prédio do primeiro ano. Seus colegas no departamento de polícia de Broward foram criticados por não tentarem enfrentar o atirador.

Mazzei: Onde nós tivemos de entrar, o que vivemos, o que vimos foi arrasador. Quando você está lá dentro, não percebe a magnitude da coisa. Depois, é claro, dormir se torna um problema. Fui pescar e achei que foi demasiado tempo livre. Só me lembro de que suspirei muito naquele dia.

Houve um dia de cura no parque para os trabalhadores de emergência médica e famílias. Eles fizeram perguntas para nós que não conseguiam responder: “Quem foi a última pessoa que viu meu ser querido?”

Mock: Me ajudou conversar com as crianças e os professores, o que não pude fazer no prédio.

Mazzei: Não se passa um dia sem que você pense em algum aspecto daquele dia. Eu não passei na frente da escola por algum tempo.

Mock: Eu me formei na Douglas, classe de 93. Puxa, tenho ótimas lembranças de lá. Hoje você já olha diferente.

Mazzei: Fomos à casa de um sargento bater papo. Ficamos lá sentados conversando durante horas, sobre o que as pessoas viram, para que as mulheres e maridos pudessem entender tudo. Muitos de nós pensamos que íamos entrar num tiroteio e não tínhamos certeza se íamos sair.

Os funerais foram duros. Dois ou três por dia. Uma coisa que realmente me impressionou foi quando as crianças fizeram as marchas.

Mock: O trabalho nunca parou. Nós nunca tivemos uma pausa para refletir. Mas houve muitas oportunidades para as pessoas tirarem aquilo do peito. Tivemos reuniões, depoimentos e audiências. Afinal, toda a verdade está aparecendo.

Eve Edelheit/The New York Times JAMMAL LEMY, 21 ANOS, FORMADO EM 2017 PELA MARJORY STONEMAN DOUGLAS (IMAGEM: EVE EDELHEIT/THE NEW YORK TIMES)

JAMMAL LEMY, 21

O formando de 2017 na Stoneman Douglas é cofundador da Marcha por Nossas Vidas, organização criada depois do tiroteio. Mas ele não é um dos líderes mais conhecidos do grupo. Lemy deixou a faculdade para ajudar no merchandising, mas se tornou o diretor criativo da organização depois que desenhou uma camiseta que pode ser escaneada com um celular para uma pessoa se registrar como eleitora.

Eu ainda não passei o luto. Tivemos muita coisa acontecendo. Não quero pensar no dia em que minha vida mudou. Esta quinta-feira (14) será como um trem: tudo vai bater.

Quando você está na estrada, as pessoas o veem como um líder. É fisicamente exaustivo e você não quer apagar. Percorremos mais de 60 cidades em 60 dias. Vimos os altos e baixos dos EUA. Isso obriga a meditar muito. Quase todo dia eu penso: “Nossa, veja aonde chegamos”. Foi minha primeira vez longe da família por um longo período. Antes eu tinha viajado de avião umas três vezes.

Eu criei camisetas com QR codes para as pessoas se registrarem para votar. Dissemos às pessoas que queríamos que todos os garotos do país usassem aquela camiseta, e as pessoas nos disseram: “É impossível. Vocês precisam ter esperanças e sonhos realistas”. Bem, nós temos altos objetivos! Estive em um show e vi uma pessoa usando a camiseta. São pequenas vitórias. Tivemos o maior comparecimento de jovens em eleições em 25 anos –mas ainda foram só 31%.

Saí da faculdade porque você tem de escolher o que é mais importante. Quero usar meus talentos e habilidades para mudar o mundo de algum modo. É por isso que eu quero ser lembrado, mais que uma média suficiente para passar de ano.

Eve Edelheit/The New York Times TORI GONZALEZ, DE 18 ANOS, É ALUNA DA ESCOLA MARJORY STONEMAN DOUGLAS (IMAGEM: EVE EDELHEIT/THE NEW YORK TIMES)

TORI GONZÁLEZ, 18

Ela é aluna do quarto ano, e seu namorado, Joaquin Oliver, conhecido como Guac, foi morto no tiroteio, poucos meses antes da formatura. Só em dezembro ela deu o que considera o primeiro passo para a cura: plantou um jardim memorial na escola para homenagear as vidas perdidas. Ela mantém num vaso as flores que Joaquin lhe deu no último Dia dos Namorados [14 de fevereiro nos EUA], seu “último ato de amor”, segundo ela.

Depois da formatura, vou tirar um ano de folga. Preciso de uma pausa. Acho que vou ser voluntária no exterior. Talvez vá para a África –eu devia ir com o Joaquin. Apenas quero sair daqui por algum tempo.

O melhor amigo dele me levou à formatura. Eles a estragaram completamente: no meio da festa, passaram um show de slides dos alunos que deveriam estar ali. Você via todo mundo caindo no chão e chorando. Isso me marcou. No início do ano escolar, não falei com ninguém. Um dia havia uma garota olhando fixo para mim. Ninguém sabe o que dizer, é muito desconfortável.

Estou usando o blusão dele. Uso o tempo todo. Vou parecer muito melosa, mas desde o momento em que nos conhecemos eu sabia que passaria a vida com ele. Ele nunca foi meu namorado. Ele dizia: “Espero que você saiba que não é minha namorada. Você é minha alma gêmea”. Sei que sou só uma criança, e as crianças não sabem muita coisa, mas essa foi a forma mais pura de amor que existe. Sou muito grata por ter vivido isso, mesmo por um tempo tão curto.

No ano passado fiquei muito doente nesta época. E Joaquin dizia: “Espero realmente que você melhore para o Dia dos Namorados”. Esse foi o primeiro dia em que eu voltei à escola. Fico muito feliz porque o vi naquela manhã. Foi provavelmente o melhor dia que tivemos juntos.

MANUEL OLIVER, 51, E PATRICIA OLIVER, 52, PAIS DE JOAQUIN OLIVER, UM ESTUDANTE QUE FOI MORTO NO MASSACRE DA ESCOLA MARJORY STONEMAN DOUGLAS (IMAGEM: EVE EDELHEIT/THE NEW YORK TIMES)

MANUEL OLIVER, 51, E PATRICIA OLIVER, 52

Como muitos outros pais, os de Joaquin Oliver tornaram-se ativistas dedicados desde a morte do filho. Um deles foi eleito para o conselho escolar. Embora as famílias não tenham as mesmas opiniões políticas, elas mantêm contato e às vezes se reúnem, sabendo que estão unidas pela perda de um filho.

Manuel Oliver: Temos muitos momentos tristes que guardamos para nós. As pessoas não sabem que eu choro muito. Às vezes me acho perdido na vida. Depois acabo entendendo que meu filho não vai voltar, por mais que eu chore isso não vai acontecer.

Tudo o que vejo na casa me lembra Joaquin. Mas também sinto falta do meu filho adulto, o que nunca terei, o que irá à faculdade, se casará, terá filhos. Como pai, você tem sonhos. Você se vê como um idoso convivendo com seus filhos. Isso é algo que não poderei mais fazer.

O que aconteceu com Joaquin acontece todos os dias. Isso não é só sobre ele. Isso não é só sobre Parkland. Nem sobre a Flórida apenas.

Patricia Oliver: Não há uma regra a seguir. Não há um livro para ler. Às vezes você tem a melhor atitude, em outros dias você tem de suportar e no fim do dia está destruída. Para enfrentar meu vazio, assisto vídeos, vejo fotos. Me ajuda ver Joaquin vivo,n rindo, brincando, falando.

Sinto Joaquin a cada segundo. Há pouco parecia que ia chover, e eu disse: “Não se preocupe, não vai chover. Porque Joaquin vai cuidar disso”. E ele respondeu, porque veja: está ensolarado de novo.

Hoje conheci uma garota que estava na classe dele naquele dia. Eu não tinha conseguido falar com ela antes, e pelo menos agora sei que eles não fecharam a porta para ele. Porque essa era uma de minhas preocupações: que um dos gritos que eles ouviram no momento fosse ele dizendo “Socorro! Socorro!” Mas ela me disse que não. Isso acalma meu espírito.

Eve Edelheit/The New York Times SARAH LERNER, 38 ANOS, PROFESSORA DE INGLÊS E JORNALISMO E CONSELHEIRA DO ANUÁRIO DA ESCOLA MARJORY STONEMAN DOUGLAS (IMAGEM: EVE EDELHEIT/THE NEW YORK TIMES)

SARAH LERNER, 38

Professora de inglês e jornalismo, assessora do Livro do Ano em Stoneman Douglas, ela reuniu em um livro histórias de sobreviventes do tiroteio. Duas de suas alunas foram mortas: Jaime Guttenberg e Meadow Pollack.

Fui ao cemitério no domingo. O primeiro lugar aonde fui foi o de Meadow. Eu apenas saí do carro e desmoronei. Era feio chorar. Pedi desculpas pelo que aconteceu a ela. Eu disse a Jaime que minha filha, Hannah, dedica a ela suas danças competitivas.

Em Rosh Hashana, perguntei ao meu rabino se podia dizer a oração memorial, Kaddish. Eu não quis ser desrespeitosa com aqueles que perderam parentes próximos. Ele disse: “É claro que é apropriado, Sarah. Eles significavam tanto para você”. Foi horrível dizê-la para pessoas que não deveriam ter partido tão jovens e daquele jeito.

Ontem à noite recebi um telefonema de uma ex-aluna. Eram quase 23h e ela me mandou uma mensagem: “Está acordada?” Ela está isolada porque está longe de casa, e não teve um segundo para parar e processar as coisas. Ela me chama de “Mamãe”. É o relacionamento que eu tenho com esses garotos.

Não me imagino ensinando em qualquer outro lugar. Sinto-me segura na escola. Mas vão ser uns dias muito pesados. Na quinta, vou fazer massagem e pintar as unhas. Vou almoçar com meu irmão e tentar não ver o noticiário. Preciso apenas ser.

VIDA EUA: Como morar barato nos Estados Unidos

VIDA EUA: Os 10 maiores obstáculos para brasileiros que mudam para os Estados Unidos


os mais lidos62 times!

COMPARTILHAR