Muitas vezes os pais são o maior problema do filho atleta

Por CLARA VIANA

Existe um problema na relação dos pais com o esporte que os filhos praticam, que pode tornar esta actividade um “sofrimento” para as crianças e jovens, alerta Carlos Neto, professor da FMH (Faculdade de Motricidade Humana) da Universidade de Lisboa.

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Pelo mundo, pais invadem campos e quadras por não concordarem com atitudes de juízes e técnicos. (Foto-Getty)


Carlos também é pesquisador em áreas como o esporte e o desenvolvimento da criança, fala em quatro diferentes perfis de pais. “Há os desinteressados, que transportam os filhos mas não se envolvem. Há os moderados, com comportamentos corretos e visão adequada do que deve ser a prática esportiva. Há os excitados, que insultam os outros e tratam mal os filhos, a quem vêem como possível fonte de lucro. E por fim os fanáticos, que olham para as crianças como se já fossem campeões e sempre jogassem em alto nível. Eles hipotecam a própria vida em função da atividade dos filhos e entram frequentemente em conflito com os clubes.”

O presidente da CONFAP (Confederação Portuguesa das Associações de Pais), Jorge Ascenção, também diz que existem, por parte de alguns pais, “comportamentos completamente inadequados e que acabam se tornando um péssimo exemplo”, mas defende que essa não é uma postura generalizada. “É necessário uma melhor formação no sentido de enfatizar que o resultado não é o mais importante, uma coisa que aliás não se ensina nas escolas”.

“O maior problema são os pais que exercem uma pressão permanente sobre os filhos, que não percebem que estes precisam de espaço”, corrobora Pedro Mil-Homens, também professor da Faculdade de Motricidade Humana e ex-responsável pela Academia do clube Sporting de Lisboa, que também possui escolinhas de futebol para os mais novos. Estes pais são numerosos e encontram-se em todos as esferas sociais. “São pais que não obtiveram sucesso em suas carreiras esportivas e acabam projetando nos filhos o que gostariam de ter sido e não foram”, acrescenta.

Técnicos brigam com árbitro durante partida de futebol no Texas. (Reprodução-Youtube)

Crianças retiradas de campo

E o que fazem estes pais? “Querem substituir os treinadores, gritam repetidamente instruções para dentro do campo. ‘Chuta, corre, volta e por aí fora…’ O que só confunde as crianças”, diz Rafael Martinho, treinador das escolinhas de futebol do SL Benfica. Eles também insultam treinadores, árbitros, times adversários e no fim “cobram” dos filhos por não terem ganho ou feito o que eles disseram.

Todos concordam no diagnóstico que este tipo de conduta é mais exagerado no futebol do que em outras modalidades, não só pelo impacto social deste esporte, mas também porque “muitos pais olham para os seus filhos como sendo potenciais jogadores profissionais”, descreve Pedro Mil-Homens.



Querem estar o tempo todo perto do campo, querem poder gritar e quando não podem, começam a se alterar. Foi o que aconteceu, quando a Academia do Sporting chegou na cidade de Alcochete, 40 min de Lisboa. “Comecei avisando que os pais não poderiam assistir aos treinos, assim como não assistem às aulas de Português ou de Matemática, mas eles não aceitaram e tivemos de chegar a um meio termo: poderiam assistir aos treinos, mas de longe.”

“Quando se trata de uma atitude sistemática, temos de lidar com ela de forma drástica”, diz Rafael Martinho, que por mais de uma vez retirou crianças do campo porque os pais deles não paravam de dar instruções. “É uma forma de mostrar que estão agindo de maneira errada”, defende, acrescentando que já algumas vezes juntou os pais dos seus atletas (atualmente com 12 anos) para tentar convencê-los de que “o mais importante não é ganhar, mas sim como se chega ao resultado final, o que tem a ver com o processo de aprendizagem”.

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“Nas reuniões com pais, que fazíamos no Sporting, eles percebiam que haviam comportamentos que não eram corretos, mas quando os treinos e jogos começavam, eles se transformavam”, disse também Pedro Mil-Homens. “É muito importante que nos clubes exista alguém disponível para trabalhar com os pais”, defende.

“Quando dentro de casa só se fala em vitórias e os pais adotam um comportamento muito competitivo, o processo de aprendizagem morre”, alerta Rafael Martinho, admitindo que este é também um problema de alguns treinadores.

Carlos Neto defende, a propósito, que é preciso “atualizar a formação de treinadores” e mudar também o modo como os clubes trabalham seus atletas mais novos, de forma a “humanizar a prática esportiva” e a não pular etapas que podem comprometer o desempenho futuro e até a saúde das crianças e jovens.

Pais brigam durante partida de futebol americano em Burleson no Texas. (Reprodução-Youtube)

Ensino articulado

“Fazer atletas a todo o custo nunca dá certo”, refere, acrescentando que “há muitas crianças que sofrem porque serem obrigadas a praticar algum esporte”, frequentemente em modalidades que são escolhidas pelos pais. E esta é uma das razões, acrescenta, porque existe também um “abandono em larga escala da prática esportiva”.

Pedro Mil-Homens chama a atenção para o fato de, no geral, “as competições infanto-juvenis serem cópias das competições esportivas dos mais velhos”. “Formar campeões começa com as crianças brincando na rua, só que estas crianças não tem mais tempo para isso”, diz Carlos Neto.

Ambos frisam a necessidade da prática esportiva não se sobrepor à escola. “Infelizmente há muitos atletas de alto nível que não conseguiram obter o sucesso escolar e isso é muito preocupante”, prossegue o professor.

O presidente da CONFAP lamenta que os jovens tenham que ser prejudicados nos resultados escolares por praticarem algum tipo de esporte, uma situação atribuída ao facto da escola estar de costas para a realidade dos jovens que precisam dedicar muito do seu tempo ao esporte. “Do mesmo modo que há um ensino articulado para a música [onde os alunos são dispensados da frequência de algumas disciplinas para prosseguirem a sua educação musical] também deveria haver um ensino articulado para o esporte”, defende.



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