Imigrantes estão assustados com o novo Censo dos EUA

Por REUTERS.

Pergunta sobre nacionalidade no Censo dos EUA provoca polêmica. Questão será incluída no Censo de 2020; para opositores, imigrantes acabarão não respondendo ao levantamento, por medo que informações possam ser usadas contra eles.

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A questão da cidadania americana voltará ao censo de 2020, conforme anunciou a administração Trump. (Imagem-Getty)

Uma questão sobre a nacionalidade será incluída no censo americano de 2020 para ajudar a reforçar a Lei do Direito de Voto, afirmaram autoridades federais na segunda-feira — embora o estado da Califórnia já tenha movido ação contra a medida, argumentando que isso desencorajaria a participação dos imigrantes na pesquisa. O secretário de Comércio, Wilbur Ross, decidiu acrescentar a questão após um pedido do Departamento de Justiça, que argumenta que ela permitiria a melhor aplicação da Lei do Direito de Voto, disse o Departamento de Comércio dos EUA em um comunicado.

“O secretário Ross determinou que a obtenção de informações completas e precisas para atender a essa finalidade legítima do governo superava os potenciais impactos adversos limitados”, diz o texto.

O censo, que é obrigatório sob a Constituição dos EUA e ocorre a cada dez anos, inclui todos os residentes nos Estados Unidos. Ele é usado para determinar a quantidade de assentos para cada estado na Câmara dos Deputados e distribuir bilhões de dólares em fundos federais para as comunidades locais.

Ross disse em um memorando que a Lei do Direito de Voto — legislação criada em 1965 que promove a representação de minorias no sistema político americano — exige uma contagem de cidadãos em idade de votar para proteger as minorias contra a discriminação, e que obter essas informações como parte do censo seria mais eficaz.

Os opositores da questão sobre nacionalidade afirmam que isso poderia desencorajar ainda mais os imigrantes de participarem da contagem, especialmente quando eles já temem que informações possam ser usadas contra eles. O Estado da Califórnia, que tem uma grande população imigrante, respondeu na terça-feira entrando com uma ação em um tribunal federal contra o Departamento de Comércio e o Escritório do Censo dos Estados Unidos, que organiza o censo.

O Procurador Geral da Califórnia, Xavier Becerra, pediu ao Tribunal Distrital dos EUA no Distrito Norte da Califórnia para emitir uma liminar determinando que a medida viola a Constituição ao interferir na obrigação de conduzir uma contagem completa da população dos EUA. O anúncio foi feito enquanto o presidente Donald Trump tenta manter sua promessa de campanha de construir um muro de fronteira entre o México e os Estados Unidos, reprimindo a imigração ilegal. Trump impôs medidas mais rigorosas na imigração e baniu viajantes de vários países de maioria muçulmana logo após assumir o cargo em janeiro de 2017.

“Esta questão de cidadania desnecessária e não testada interromperá o planejamento em um ponto fundamental, acabará com anos de preparação meticulosa e aumentará os custos significativamente, colocando em risco uma contagem precisa e bem-sucedida”, disse a Conferência de Liderança sobre Direitos Civis e Humanos em um comunicado.

No final de 2017, pesquisas mostraram que alguns imigrantes tinham medo de fornecer informações ao censo por receio de serem deportados.

— Esta decisão vem em um momento em que vimos posições políticas xenofóbicas e anti-imigrantes deste governo”, disse Kristen Clarke, presidente e diretora executiva do Comitê de Advogados dos Direitos Civis.

A pergunta, se eles são cidadãos americanos, será colocada no censo de 2020. (Foto-Iggy)

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MEDO DA DEPORTAÇÃO

Imigrantes e pessoas que moram com eles estão preocupados com a confidencialidade e os aspectos de compartilhamento de dados da contagem, disse Mikelyn Meyers, pesquisador do Centro de Medição de Pesquisa, em uma reunião do Comitê Consultivo Nacional do Departamento do Censo dos Estados Unidos, em novembro. Pesquisadores do censo disseram que os imigrantes entrevistados levantaram espontaneamente questões como a proibição de viagens e a dissolução da Ação Diferida para Chegadas na Infância (“Daca”, na sigla em ingês), um programa que protegeu da deportação jovens imigrantes trazidos para o país ilegalmente quando crianças.

Um dos imigrantes entrevistados, disse Meyers, afirmou aos funcionários do governo: “A possibilidade de que o censo possa fornecer minhas informações para a segurança interna e que a partir disso a imigração poderia me prender por não ter documentos me aterroriza”.

Perguntas sobre cidadania já estiveram presentes em censos passados e são incluídas em inquéritos populacionais mais frequentes que também são administrados pelo Departamento do Censo dos Estados Unidos. Ross disse que encontrou funcionários do censo e considerou argumentos a favor e contra a mudança feita por grupos de interesse, membros do congresso e autoridades estaduais e locais.

Segundo Ross, nenhuma evidência fornecida à agência demonstrou que a pergunta relativa à da cidadania diminuiria as taxas de resposta daqueles que já “geralmente desconfiavam dos esforços governamentais de coleta de informações, que não gostam do atual governo ou temem a aplicação da lei”.

No entanto, Ross afirmou que o departamento de comércio não conseguiu determinar como a questão do cidadão afetaria a capacidade de resposta.

— Mesmo que haja algum impacto nas respostas, o valor de dados mais completos e precisos derivados do levantamento de toda a população supera tais preocupações — disse ele no memorando.

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