Brasileiros não se consideram “LATINOS” nos EUA

Por HENRIQUE GOMES BATUSTA

Sondagem realizada no estado do Massachusetts indica que apenas 22% dos brasileiros se sentem parte da comunidade denominada de “Latinos”.

Não são só as pessoas de origem africana que têm dificuldades de se reconhecerem apenas como latinos: 78% dos brasileiros que moram na região de Boston — onde está a maior comunidade do país nos EUA, estimada em até 400 mil pessoas — não se consideram parte desse grupo nos EUA. Diferenças de língua, culturas e organização das comunidades ajudam na diferenciação.

Frequentadores do Festival Brasileiro em Boston, ocorrido em setembro de 2017 – Reprodução de Facebook / Brazilian Festival in Boston – Festival Brasileiro em Boston.

O levantamento inédito da Ideia Big Data, com 302 brasileiros que vivem em Massachusetts indica que apenas 22% dos entrevistados se sentem latinos. Embora compartilhem lutas e realidades, brasileiros e demais imigrantes continuam distantes.

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— Podemos dizer que, com as políticas restritivas de imigração, os dois públicos têm uma espécie de “inimigo comum”, o presidente Donald Trump, mas isso não faz com que ocorra maior interação — diz Maurício Moura, presidente da Ideia Big Data. — Na Flórida e em outros locais pode haver mais interação, mas aqui em Boston o que vemos é a comunidade brasileira muito concentrada em alguns bairros ou cidades como Framingham e Summerville, em regiões onde quase só se fala português.

Nós brasileiros não carregamos conosco uma identidade visual clara, capaz de nos diferenciar de outros povos latinos.

Carlos Quesada, diretor-executivo do Instituto de Raça, Equidade e Direitos Humanos afirma que o problema não é nos EUA, mas vem do Brasil.

— Os brasileiros, em geral, se sentem diferentes dos demais latinos. Desde casa parecem não integrar o continente, se autopercebem assim. Este comportamento é repetido nos EUA.

O historiador americano Jesse Hoffnung-Garskof, professor da Universidade do Michigan, acredita que estas classificações não são tão fixas e que, se em alguns momentos todos se sentem latinos, em outros a identidade nacional fala mais alto.

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— Pessoas do México se veem mexicanas antes de se assumir como latinas. O mesmo ocorre com outros países — afirma ele. — Talvez uma situação comum de luta política ajude o grupo a se ver mais como latino.

Ana Gonzalez-Barrera, pesquisadora especializada em Hispânicos, Imigração e Demografia do Pew Research Center, afirma que isso não é exclusividade dos brasileiros: haitianos, por exemplo, têm mais dificuldades de se afirmarem latinos, também por falarem outra língua que não o espanhol. E nem mesmo o termo hispânicos é unanimidade entre todos os que falam a língua de Cervantes — ela conta que os espanhóis acreditam que o termo se refere mais aos latino-americanos e que preferem ser classificados, nos EUA, como europeus.

Morador de Framingham, Jonas, que preferiu não dar seu sobrenome por estar morando nos EUA sem o visto adequado, culpa os hermanos por não se sentir latino.

— A música é outra, a comida é outra, e só andam em grupos. Muitas das associações visam beneficiar apenas mexicanos, salvadorenhos. Eles não lutam pelos direitos dos brasileiros com o mesmo afinco — diz.



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